Ruínas da Igreja do Carmo
Igreja do Carmo, uma das poucas edificações medievais e góticas que subsistem em Lisboa, conta com inúmeros episódios na sua história dignos de aqui serem mencionados. A coisa vai sair longa, prometemos que vamos tentar mantê-la interessante. 😅
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Comecemos pelo princípio, a Igreja e o Convento do Carmo foram mandados construir por D. Nuno Álvares Pereira, o Santo Condestável, sabemos quem foi?
Então vamos lá, após a morte do Rei D. Fernando I (1367-83), uma crise dinástica pôs o trono do Reino de Portugal em rabos castelhanos. A revolta popular não demorou a eclodir. A população impunha que a coroa fosse entregue a um Português. Foram buscar D. João, filho ilegítimo de D. Pedro I (1357 – 67) e coroaram-no Rei. Como se pode imaginar, quem não ficou muito contente foram os senhores Castelhanos, que de imediato nos declararam guerra. É aqui que entra o nosso protagonista, o tal Condestável, que, na Batalha de Aljubarrota (1385), ao pôr em prática a tática militar do quadrado, conseguiu pôr os castelhanos a andar daqui para fora. E pronto, novo monarca e nova dinastia a abrir caminho para um dos mais importantes períodos da nossa História.
Em jeito de celebração e de agradecimento pela vitória, o novo Rei D. João I, Mestre de Avis, mandou construir o Mosteiro de Santa Maria da Vitória, também conhecido como Mosteiro da Batalha. Com a mesma intenção, D. Nuno Álvares Pereira idealizou outro monumento, o Convento de Nossa Senhora do Vencimento, no alto de uma encosta, em Lisboa, defronte do então já existente Castelo de S. Jorge.
© Arquivo Municipal de Lisboa | PT-AMLSB-CMLSBAH-PCSP-004-BAR-000284 (entre 1890 e 1945)
Após autorização papal, a obra começou em 1389. Tratou-se um enorme desafio para os mestres da época, pois, dada a localização e a qualidade do solo, os alicerces cederam duas vezes. Reza a história que perante tanta dificuldade, Álvares Pereira terá gritado: “é feito, nem que as fundações sejam em bronze!” Bem, em bronze ou não, a coisa deve ter ficado bem feita pois, embora sem cobertura, passados mais de 600 anos e um grande terramoto, a Igreja ainda lá está.
A obra demorou trinta e quatro anos a ficar concluída. Em 1423 estava erguido o imponente Convento do Carmo, como passou a ser conhecido. Nuno Álvares Pereira entregou-o aos frades da ordem Carmelita. Nesse mesmo ano, doou-lhes todo o seu património e ingressou o Convento. Assumiu o nome de Frei Nuno de Santa Maria e aqui morou, até à data da sua morte. Ficou sepultado na capela-mor da Igreja. A acrescentar que este senhor virou Santo. Em 1918 foi beatificado pelo Papa Bento XV e, em 2009, com o nome de São Nuno de Santa Maria, canonizado pelo Papa Bento XVI.
O Convento do Carmo manteve-se em funções durante cerca de quatro séculos. Em épocas em que a Igreja Católica tinha uma importância central na sociedade, o Carmo chegou a ser uma das mais ricas e poderosas instituições da cidade. Nesta fase inicial, quer o Convento, quer a Igreja foram alvo de algumas alterações e renovações a que o passar do tempo obriga. Aqui focamo-nos apenas na Igreja. Um artigo sobre o Convento será publicado brevemente.
© Arquivo Municipal de Lisboa | PT-AMLSB-CMLSBAH-PCSP-004-BOB-000188 (s.d.)
A 1 de novembro de 1755, um grande terramoto abalou violentamente toda a cidade. Seguiram-se múltiplos incêndios. Com certeza não ajudou ser dia de Todos os Santos e estar muita gente a acender velas pelos seus falecidos entes queridos. O resultado é o que está à vista, literalmente. A Igreja ficou seriamente danificada e o seu abundante recheio artístico e religioso queimado.
Consta que a famosa expressão popular “cair o Carmo e a Trindade”, geralmente usada para descrever circuntâncias trágicas, terá nascido desta situação. Isto porque o Terramoto provocou a ruína destes dois importantes Conventos, à data, vizinhos.
As obras de reconstrução começaram logo no ano seguinte, mas apenas no Convento, onde viviam os frades. Curiosamente, respeitando o estilo arquitetónico original, o gótico. Algo pouco habitual naquela época. De uma forma geral, a consciência e o respeito pela conservação do património surge mais tarde.
Numa altura em que o estilo arquitetónico era o barroco, seria de esperar que a reconstrução fosse feita com este traço. De uma forma geral, a consciência e o respeito pela conservação do património na sua forma original, surge apenas no século seguinte.
Sinal da passagem do tempo e da alteração das mentalidades, os trabalhos não foram terminados, por falta de financiamento. No século XVIII, o clero já não tem o poder de outrora. Assim, a Igreja do Carmo não chegou a sofrer alterações e chega aos nossos dias como testemunho real da catástrofe provocada pelo grande terramoto de 1755.
Em meados do século XIX, uma nova tragédia ditou o fim definitivo da ligação Carmelita ao Carmo. A extinção das ordens religiosas decretada pelo Governo, ditou o encerramento de todos os conventos. Muitos ficaram ao abandono, alguns foram vendidos em hasta pública, outros passaram a albergar instituições do Estado. De resto, houve um grande saque a toda à arte sacra e ao património religioso.
A partir de 1845, as dependências conventuais do Carmo passaram a albergar um Quartel e o Comando-Geral das Guardas em Portugal. A Igreja, em ruína, ficou abandonada durante vários anos. Serviu de depósito de estrumes e despejos do Quartel. Ainda se pensou em transformá-la em banhos públicos ou deitar tudo abaixo e aqui construir um miradouro. Felizmente, como podemos ver, a sentença foi outra.
© Arquivo Municipal de Lisboa | PT-AMLSB-POR-001483 (1940)
Em 1863, Joaquim Possidónio Narciso da Silva fundava a Real Associação dos Architectos Civis e Archeólogos Portugueses. Hoje, Associação dos Arqueólogos Portugueses (AAP). Consequência de todas as tragédias ocorridas nos anos que lhe antecedem – o Terramoto de Lisboa (1755), as invasões francesas (1807-1810), a extinção das ordens religiosas (1834) e o consequente incalculável desaparecimento de património – a APP assumiu como sua principal missão, a recuperação e preservação de património artístico e identitário. E assim, no ano seguinte, nasceu o primeiro museu de arte e arqueologia do país, o Museu Arqueológico do Carmo (MAC), com sede nas ruínas da antiga Igreja do Carmo.
Como se pode imaginar, se as ruínas estavam ao abandono e cheias de lixo há vários anos, a grande maioria do espólio do Museu foi reunido e para aqui trazido pela AAP e pelos seus membros. Como referido, a Associação nasce de um sentimento de urgência em recuperar e proteger todo o tipo património que se havia perdido nos anos anteriores. Daí a grande variedade de artefactos, peças e objetos, de carácter arquitetónico, arqueológico e histórico, das mais variadas origens. O Museu vale bem a visita pelo que não nos vamos alongar a descrever a experiência. Deixamos apenas alguns detalhes que achámos demasiados bons para não serem contados. 😜
© Arquivo Municipal de Lisboa | PT-AMLSB-CMLSBAH-PCSP-004-MNV-001745 (1873)
No século XVI, a famosa e controversa questão das indulgências – o perdão divino e/ou a salvação da alma a troco de doações à Igreja – provocou dissidências e, consequentemente, essencialmente no norte da Europa, o surgimento das Igrejas Protestantes. A Península Ibérica permaneceu profundamente católica. Passados cinco séculos, é curioso ainda encontrar testemunhos diretos desse tempo da História. Neste caso, as inscrições que estão nas paredes laterais da porta principal. Atentem, será que conseguem decifrar aquelas letras? Do lado direito, o escrito refere quarenta dias de perdão a todo o fiel que visitar a Igreja de Nossa Senhora do Carmo e beijar a cruz. Do lado esquerdo, o Bispo D. Ambrósio concede a todos os visitantes, quarenta dias de remissão de pecados e o perdão à alma de Branca Rodrigues Talheira, pela doação da sua fazenda ao Convento. Não é interessante?
Ao entrar a porta principal, deparamo-nos com a nave central da antiga Igreja. Segundo o fundador da AAP, quando a Igreja lhe foi cedida, para aqui instalar a sua sede e o Museu, todo este espaço estava tão cheio de lixo que “achavam-se já subterrados os 14 degraus de cantaria, que davam ingresso para ela, e o entulho das suas naves subia a tal ponto, que para as desobstruir, foi necessário tirar 8.000 carroçadas!”. 😬
Neste espaço museológico a céu aberto, existe um sem número peças arquitetónicas e escultóricas. Embora não tenhamos encontrado tal referência no Museu, algumas fontes do início do século XX mencionam que aqui se encontra uma pia batismal do século XV, onde foram batizados todos os filhos de D. João I. A geração que, n’Os Lusíadas”, Luís de Camões designou como a Ínclita Geração, que abriu as portas à expansão marítima portuguesa. Ficámos sem saber se assim é ou se será narrativa interesseira de certas fontes consultadas. 😜
© Arquivo Municipal de Lisboa | PT-AMLSB-CMLSBAH-PCSP-004-MNV-001023
© Arquivo Municipal de Lisboa | PT-AMLSB-CMLSBAH-PCSP-004-FEC-000020
No pós-terramoto não havia parede a separar a nave central das salas cobertas do Museu. Com o propósito de abrigar as coleções, construiu-se uma parede de ferro e vidro. Só anos mais tarde é que se construiu a atual parede de tijolo e, como podem ver nas fotografias, ali colocada a janela manuelina que veio do Mosteiro dos Jerónimos.
Na sala um, o teto ainda se encontra escurecido, resultado do incêndio pós-terramoto. 🤯 Na verdade, quando a AAP toma conta das ruínas, mantê-las foi opção. Em meados do século XIX, imperava o gosto romântico pelos monumentos antigos e pelas marcas da História.
Na sala três, antiga capela-mor, está sepultura primitiva de D. Nuno Álvares Pereira. Retirada de um Guia de Portugal, “escrito em colaboração dos mais ilustres escritores portugueses” do início do século XX, aqui fica uma singular citação sobre esta sepultura: “durante muito tempo, a Igreja foi local de peregrinação do povo de Lisboa, que ia dançar a cantar à roda do túmulo do herói”. 😳 Como podemos ver, hoje encontra-se vazio, mas não se inquietem, as ossadas do senhor não se perderam. Andaram a passear pela Igreja de São Vicente, pelo Mosteiro dos Jerónimos, pela pequena Igreja da Ordem Terceira dos Carmelitas e hoje encontram-se, finalmente, a repousar na Igreja de Santo Condestável, em Campo de Ourique.
Ainda na antiga capela-mor, está o túmulo do Rei D. Fernando I (1345-1383), o tal cuja morte provocou a referida crise dinástica. Haverá outras oportunidades para falar sobre o seu reinado, mas, por agora, gostaríamos só de deixar duas notas.
D. Fernando I era filho de D. Pedro I e da sua primeira mulher, D. Constança Manuel, que faleceu quando este era ainda muito novo. O seu pai teve outras mulheres, incluindo D. Inês de Castro, com quem viveu um grande e contestado amor. Ao que parece, D. Fernando viveu muito constrangido com esta situação. Não só deixou em testamento que o trono nunca poderia ser assumido pelos seus irmãos ilegítimos, filhos de D. Inês, como fez questão de mandar fazer um elaborado túmulo para a sua mãe. Uma vez que D. Pedro I se tinha feito enterrar junto de D. Inês de Castro, sua amante, no Mosteiro de Alcobaça, esta era a forma de D. Fernando I relembrar ao mundo que a verdadeira Rainha, tinha sido a sua mãe. Aquando da sua morte, mãe e filho ficaram sepultados, lado a lado, no Convento de São Francisco, em Santarém.
É já no século XIX que os túmulos são trazidos para este Museu. A notar que no seu túmulo, D. Fernando manda gravar não só o brasão régio, seu por via de seu pai, como também o de sua mãe. Trata-se de algo pouco usual nesta altura e que demonstra esta necessidade de deixar gravada na História a memória da sua mãe.
Segunda nota, conseguem ver o grande buraco no túmulo de D. Fernando I? Foi obra dos soldados franceses, com certeza, em busca de riquezas. As ossadas deste Rei estão perdidas desde então. Outra estória engraçada (ou não), aquando da expulsão das ordens religiosas, o Convento de S. Francisco, onde à data estavam estes túmulos, foi transformado em Regimento da Cavalaria nº4. Quando a AAP recuperou a arca tumular de D. Fernando, a tampa servia de cavalete para assentar os arreios dos cavalos e a arca, em bebedouro para os animais. Há que saber rir dos desvarios da História. 😳😅
Na sala quatro reside a biblioteca. Por cima das estantes dos livros, estão retratos dos primeiros membros das AAP. Estranhamente, também aqui se encontram duas múmias peruanas. De onde vieram elas, perguntam vocês. Então, um dos membros da AAP era o Conde São Januário, que foi diplomata em diversas partes do mundo. “Padecia” da mesma urgência que a AAP em reunir e conservar património e assim, durante as suas viagens recolhia objetos artísticos e patrimoniais. Eventualmente deixou todo o seu acervo ao Museu Arqueológico do Carmo.
Este imponente monumento a céu aberto e autêntico testemunho da calamidade que o Terramoto de 1755 provocou, encontra-se classificado como Monumento Nacional desde 1907.
Informações:
- Website: Museu Arqueológico do Carmo
Referências:
Arnaud, J. M. (2013) Memória e intervenção, 150 anos da Associação dos Arqueólogos Portugueses. Associação dos Arqueólogos Portugueses: Lisboa
Dionísio, S. (1988). Guia de Portugal, 1º volume, Lisboa e arredores. Fundação Calouste Gulbenkian: Lisboa.
Pessoa F. (2015) Lisboa, o que o turista deve ver, Livros Horizonte: Lisboa.
Arquivo Municipal de Lisboa | PT/AMLSB/CMLSBAH/PS/004/02/0182 (1854-11-25)
Visita Guiada – Ruínas do Carmo Episódio 12, 23 de maio de 2016, temporada 6, programa de Paula Moura Pinheiro na RTP
https://www.museuarqueologicodocarmo.pt/mac.html
https://www.infopedia.pt/apoio/artigos/$convento-do-carmo-(lisboa)
http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=6521
https://ensina.rtp.pt/artigo/convento-do-carmo-o-gotico-monumental-de-lisboa/
Fotografias adicionais:
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- © Arquivo Municipal de Lisboa | PT-AMLSB-CMLSBAH-PCSP-004-ACU-002601
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- ©Arquivo Municipal de Lisboa | PT-AMLSB-CMLSBAH-PCSP-004-ROC-000028 (ant.1893)
