Elevador de Santa Justa

O Elevador/Ascensor de Santa Justa/do Carmo. Demasiados nomes para o mesmo monumento. 🤯 Trata-se de uma torre com 45 metros de altura, em ferro fundido e decorada com filigrana rendilhada, de estilo neogótico. Dentro da torre estão duas cabines de elevador em madeira e cheias de pinta, que nos transportam diretamente para o final do século XIX. Era bom, não era? Uma viagem no tempo até à Belle Époque. 😜

© Arquivo Municipal de Lisboa | PT-AMLSB-CMLSBAH-PCSP-004-ARM-000427 (1960)

© Arquivo Municipal de Lisboa | PT-AMLSB-CMLSBAH-PCSP-004-AJG-000986 (195-)

O elevador leva-nos da Rua do Ouro ao penúltimo patamar, onde existe um passadiço com a ligação à Rua do Carmo ou, claro, também se pode fazer o caminho ao contrário. No último andar, em tempos existiu um restaurante. Hoje, há um miradouro com uma magnifica vista panorâmica sobre a cidade, infelizmente fechado desde 2022. Aguardamos ansiosamente pela reabertura, mas não se preocupem, no penúltimo patamar, a vista é igualmente incrível.

 

Agora, aposto que a pergunta que muitos fazem é: porque raio existe um elevador no meio da cidade? Bem, quem já andou a passear pelas ruas de Lisboa, com certeza já se terá apercebido do significado da frase “Lisboa, Cidade das Sete Colinas”. E, para mal dos nossos pecados, nunca estão assinaladas no mapa. O Sr. GPS diz 350 metros e nós pensamos, ah, é um instante. E de repente, sim 350 metros, mas com uma inclinação equivalente a sete andares! 🥵

© Arquivo Municipal de Lisboa | PT-AMLSB-CMLSBAH-PCSP-004-PAG-000048 (post.1902 – Paulo Guedes)

© Arquivo Municipal de Lisboa | PT-AMLSB-CMLSBAH-PCSP-004-PAG-000049 (post. 1902, Paulo Guedes)

Hoje, mudanças que vêm com os tempos, já poucos moram e fazem vida por estes lados. De uma forma geral, quem anda pela Baixa anda de passeio. Pouco importa se demoramos mais uns minutos a chegar ao destino final. Vai na volta, até agradecemos se isso se traduzir em perder umas quantas calorias. Mas viajemos até ao final do século XIX e imaginemos o nosso dia a dia, a pé, pela Baixa da cidade. Poucos tinham carro próprio e os transportes públicos de então, eram os chamados americanos, ou seja, carruagens puxadas por animais. Autch! Imaginem o caminho para casa, com crianças e sacos de compras pela mão. A criança puxa porque vê o amigo com quem quer ir brincar, o saco das compras cai ao chão e a lata de salchichas a rolar rua a baixo. 🤬 E toda esta logística, todos os dias! Bem, uma coisa é certa, ninguém precisava de ginásio, só de meditação. 😜

© Arquivo Municipal de Lisboa | PT

Foi neste contexto que uma boa alma, o Sr. Eng. Raoul Mesnier de Ponsard apresentou à Câmara Municipal de Lisboa uns quantos projetos para construir e explorar ascensores, movidos a tração mecânica. Havia que encurtar as distâncias aos lisboetas e dar descanso aos pobres animais.

Diário Ilustrado 10Julho1902

E agora digam-me lá, a nacionalidade do homem? O nome denuncia-o como francês, mas, na verdade, nasceu no Porto. Estudou fora e muitos o descrevem como aluno de Gustave Eiffel. Bem que procurámos, mas não encontrámos nenhuma fonte fidedigna que o confirmasse. Fica a dúvida.

Vale a pena acrescentar que este Sr. Engenheiro idealizou alguns mecanismos utilizados em armamento e projetou o “Aritmotecno”, um instrumento destinado a executar operações matemáticas com rigor absoluto. Será que lhe podemos chamar o avô das atuais máquinas calculadoras? Também dirigiu a construção de vários ascensores e funiculares por esse país fora. Passados mais de 100 anos, muitos deles já não existem. Ainda assim, quantos de nós já andou no elevador do Bom Jesus em Braga, no da Nazaré ou, em Lisboa, nos elevadores de Lavra (o mais antigo da cidade), da Glória ou da Bica? É ou não é um passeio fantástico? Este Sr. Ponsard era, de facto, um “engenhocas” e facilitou a vida a muita gente.

Voltando aqui ao nosso Elevador de Santa Justa, o projeto começou a ser pensado em 1890. Em 1896, o Sr. Engenheiro Raul Mesnier punha o projeto em andamento, ao pedir à Câmara a licença de construção e exploração de um ascensor que ligasse a Rua do Ouro ao Largo do Carmo. Em 1899 foram-lhe concedidas ambas as licenças, sendo que a de exploração, previa uma concessão por um período de 99 anos.

A construção demorou quase três anos. Tratou-se de uma verdadeira obra prima de engenharia, que exigiu um rigoroso planeamento e uma execução de projeto exímia. A primeira fase da obra exigiu a remoção de terras na zona das escadinhas de Santa Justa. Fácil. De seguida, construiu-se a torre que comportaria as duas cabines de elevador. O maior desafio veio depois. Havia que ligar o topo da torre ao Largo do Carmo, sendo que já havia prédios e pouco espaço de manobra. O Conde de Tomar, proprietário do prédio onde desemboca o passadiço metálico, autorizou a obra, mas com estritas condições. A estrutura do seu edifício não poderia arcar com o peso do tabuleiro. Impunha-se um pilar entre os dois pontos ligados, de forma a suportar a carga do passadiço. Pela mesma razão, para a colocação do mesmo, também não poderia haver andaimes apoiados neste prédio. O Sr. Engenheiro assumiu o desafio e cumpriu. E assim, no dia 31 de Agosto de 1901, na presença do rei D. Carlos e de toda uma audiência que veio ver o feito, por sistema de alavanca e em apenas três horas e meia, levantou-se passadiço sobre a Rua do Carmo, que passou a ligar o topo da torre do Elevador da Santa Justa ao Largo do Carmo.

Nenea Hartia (2020) Sketch depicting rotation and lifting into their final positions of the viaduct and pillar of Santa Justa Lift

No final desse ano, instalaram-se as cabines e o motor, que para descontentamento de muitos, era movido a vapor. Finalmente, a 10 de Julho 1902, foi inaugurado o ascensor, com grande pompa e circunstância. Logo nesse dia, venderam-se mais de 3000 bilhetes para a voltinha de elevador. Tal era a novidade. Infelizmente, o próprio Raul Mesnier não pôde comparecer à cerimónia devido a uma crise de ciática. A idade é tramada. 😅

Como referido, várias foram as críticas ao facto de o motor instalado no elevador ser movido a vapor. Não tardou a ser substituído por um a eletricidade. Aconteceu logo em 1907. De resto, em 1913, a exploração do elevador foi vendida à Companhia Lisbon Electric Tramway Ltd, e eventualmente à Companhia de Carris de Ferro de Lisboa, a quem ainda hoje pertence.

 

Em 2010, a Carris criou um projeto de Arte em Movimento nos elevadores da cidade. A ideia era estabelecer uma ponte entre as histórias e vivências do passado com o presente. No Elevador de Santa Justa, a artista Susana Mendes Silva criou um projeto bem interessante. No elevador, uma mensagem em várias línguas convidava os passageiros a partilhar fotografias e estórias da sua experiência num blog (www.santa-justa.blogspot.com). Quase como um Olisipographer comunitário. 😃

Se se estiverem a perguntar porque carga de água está uma boneca roxa, com um aspirador na mão, no pilar que sustenta o passadiço, perguntem ao Superlinox. Segundo o artista, a “Sofia” está ali a ver quem passa, “adora o Chiado e não suporta migalhas”.

Agora, informação de extrema importância, a viagem de elevador é uma experiência incrível, mas, infelizmente, nem sempre dá para esperar na fila. Se a quiserem evitar, entrem pelo Largo do Carmo. 

© Arquivo Municipal de Lisboa |PT-AMLSB-CMLSBAH-PCSP-004-NUN-000355 (191-) Paulo Guedes

© Arquivo Municipal de Lisboa | PT-AMLSB-CMLSBAH-PCSP-004-JBN-004264 (1907, Presidente do Brasil)

Como podemos ver pela fotografia, deve ter sido o que fez o Sr. Presidente do Brasil em visita a Portugal. 😜 Cá em cima não há bilheteira para a viagem de elevador, mas o acesso à incrível vista sobre a cidade é gratuito. Caso tenham o passe navegante, bilhete diário da rede de transportes ou o Lisbon Card, já têm o vosso bilhete para a viagem de elevador e, no topo, não costuma haver filas.

De resto, este elevador que foi construído há mais de 120 anos para integrar a rede de transportes públicos da cidade, está classificado como Monumento Nacional desde 2002. É um dos monumentos mais visitados e fotografados da cidade. Pelas nossas contas, tem capacidade para transportar quase 10 000 pessoas por dia.

 

Se por alguma razão não der para experimentar o elevador, pelo menos venha apreciar a vista a 360º graus sobre a  nossa querida cidade de Lisboa.

Informações:

Referências:

    • Gazeta dos Caminhos de Ferro. Ano 15 (350). 16 de Julho de 1902 in Hemeroteca Municipal de Lisboa

    • Delgado, H. (s.d.) O Elevador de Santa Justa na obra do Engenheiro Raul Mesnier de Ponsard. Que Futuro?

    • http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=3146

    • https://servicos.dgpc.gov.pt/pesquisapatrimonioimovel/detalhes.php?code=70141

    • https://pt.wikipedia.org/wiki/Elevador_de_Santa_Justa

    • https://www.publico.pt/1999/05/02/jornal/o-homem-dos-elevadores-132963

    • https://restosdecoleccao.blogspot.com/2014/10/elevador-de-santa-justa-carmo.html

    • https://www.publico.pt/2010/01/04/culturaipsilon/noticia/quatro-elevadores-de-lisboa-com-intervencoes-de-artistas-portugueses-1416228

    • https://www.timeout.pt/lisboa/pt/noticias/superlinox-o-artista-misterio-deixou-sofia-no-elevador-de-santa-justa-070522

Fotografias adicionais:

Capa website:

    • © Arquivo Municipal de Lisboa | PT-AMLSB-CMLSBAH-PCSP-004-JBN-000273 (1904)

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    • ©Arquivo Municipal de Lisboa | PT-AMLSB-CMLSBAH-PCSP-004-NUN-000355 (191-) Paulo Guedes