Torre de Belém
A Torre de Belém é Lindaaa! É, não é? Também achamos. Mas fiquem sabendo que este não é o verdadeiro nome dela. Inicialmente batizada de Torre de São Vicente a par de Belém, oficialmente, mantém o nome de Torre de São Vicente de Belém, em honra do Santo Padroeiro da cidade de Lisboa, S. Vicente.
Foi idealizada por D. João II (1481-1495), como parte de um plano estratégico de defesa da cidade. Em finais do século XV, época dos “descobrimentos marítimos” e do expansionismo ibérico, Lisboa e Sevilha eram os grandes centros comerciais da Europa. Eram ponto de partida para as navegações oceânicas e ponto de chegada dos produtos que vinham de além-mar: ouro, prata, as tão cobiçadas especiarias e por aí fora. Por esta razão, estas duas cidades eram bem ricas, dinâmicas e cosmopolitas. Sim meus caros, não é de agora que viver em Lisboa está na moda. Ao mesmo tempo, no resto da Europa, paz era algo recente. Só há relativamente pouco tempo é que os países europeus tinham deixado de andar à batatada uns com os outros. Perante este cenário, pelo sim pelo não, D. João II achou por bem proteger a cidade contra um eventual ataque.
O sistema defensivo delineado envolvia três pontos: a Torre de Santo António de Cascais (hoje Forte de Nossa Senhora da Luz de Cascais), primeiro ponto de vigia sobre a entrada da barra do Tejo; a Torre de São Sebastião da Caparica, na margem sul do rio Tejo, cujas ruínas ainda hoje existem; e, finalmente, aquela que virá a ser a Torre de Belém, então cercada por água, onde durante anos esteve fundeada a nau São Cristóvão, em posição estratégica para defender Lisboa. A ideia era construir a torre nesse lugar.
Este pobre Rei, senhor de muitos sonhos, nem todos viu acontecer. Bateu as botas antes de se dar início à construção da Torre de belém. Também tinha o sonho que se descobrisse o caminho marítimo para a Índia, o que também só aconteceu três anos depois de ele morrer (1498). Plantou as sementes e regou-as. Quem colheu os frutos foi o seu primo e sucessor, D. Manuel I (1495-1521), que por essa mesma razão ganhou o cognome “o Venturoso”. Caiu-lhe tudo no colo, até o trono.
Voltando à Torre de Belém, como sabemos, foi efetivamente erguida. Numa fase em que o Mosteiro dos Jerónimos, a joia da coroa manuelina, já estava a ser construído, tornava-se ainda mais importante defender a aproximação marítima à cidade. A mando de D. Manuel I, a obra começou em 1514, no referido lugar, num banco de pedra, a cerca de 200 metros da margem, ao largo da Praia do Restelo. Ficou concluída em 1520 e o primeiro Capitão-Mor e Alcaide foi Gaspar de Paiva. Tratava-se de um cargo de grande prestígio e de total confiança do Rei pois era da sua responsabilidade a cobrança das taxas sobre os produtos que chegavam do comércio ultramarino. Eventualmente estas funções passam a ser cumpridas pela figura do Governador.
© Arquivo Municipal de Lisboa | PT-AMLSB-CMLSBAH-PCSP-004-FEC-000449 (s.d.)
Por ser um monumento tão antigo, a documentação é escassa. Já no século XX, muito se discutiu sobre quem foi o verdadeiro mestre de obra da Torre. Hoje, é consensual ter sido o arquiteto Francisco Arruda, também responsável por outras construções militares e religiosas por este país fora.
Ainda no exterior, nas esquinas da fachada virada a norte, estão esculpidos dois santos: São Miguel e São Vicente. Este último, patrono da cidade e que dá nome à Torre. Por baixo deste, um detalhe muitíssimo interessante, a representação de um rinoceronte.
Infelizmente nos dias de hoje encontra-se já um pouco deteriorado, efeitos da erosão ao longo de 500 anos. Não deixa de ser uma história engraçada. Dizem os livros que Afonso de Albuquerque, então Governador das Índias Portuguesas, numa troca de oferendas com um Rei local, recebeu um rinoceronte. Sem saber o que fazer ao presente recebido, enviou-o para Portugal. Ora, também sem saber o que fazer ao bicho, mas com vontade de agradar o Papa e garantir o seu apoio às expedições marítimas portuguesas, o Sr. Rei D. Manuel I enviou uma embaixada a Roma, levando o rinoceronte como presente. Uma violenta tempestade abateu-se sobre a nau que levava a embaixada e esta naufragou. Todos morreram, mas, por obra e graça do espírito santo (só pode) conseguiu-se recuperar o corpo do bicho, foi embalsamado e chegou na mesma a Roma, só que morto. A pergunta que não nos sai da cabeça é, como raio foi possível recuperar um rinoceronte do fundo dos mares?
Relativamente aos restantes detalhes esculpidos, nota-se bem o estilo manuelino: elementos naturalistas e ligados ao mar, cabos, conchas, folhas, e por aí adiante; elementos religiosos, para além das imagens de Santos, quantas Cruzes de Cristo conseguem contar?; e finalmente, elementos ligados à Monarquia e à História de Portugal, o brasão de armas de Portugal, as esferas armilares e por aí adiante. A par destes, existem alguns elementos de influência mourisca e oriental. Por exemplo, as cúpulas dos postos de vigia. O que se explica pelo facto de a Torre ter sido construída no auge dos “descobrimentos”, tornando muito óbvio um aspeto pouco referido na historiografia portuguesa, as interações culturais aconteceram e impactaram todos os envolvidos. Claro que há muitos outros aspetos pouco referidos, sobre os quais urge falar. O mais óbvio, as consequências do tráfico de escravos. Por hoje, vamo-nos focar na Torre de Belém. 😅
A nível de arquitetura, é bastante notório o facto de a Torre de Belém ter sido construída em fase de transição entre a Idade Média e o Renascimento. A torre de menagem, alta, é claramente inspirada nos castelos medievais. O baluarte é tipicamente moderno. Para quem não sabe (como eu até me ter posto a ler artigos infindáveis sobre a Torre de Belém) este palavrão traduz a parte avançada de uma fortificação, por norma impenetrável. Ou seja, trata-se da zona mais baixa da Torre, onde estão as peças de artilharia.
Em épocas anteriores, a técnica de guerra mais utilizada era a de neurobalística. Traduzindo por miúdos, o engenho da catapulta. A evolução para a técnica de pirobalística, ou seja, a utilização da pólvora e de artilharia/canhões, veio alterar a forma de fazer a guerra e, como tal, também a arquitetura militar. Algo bastante notório na Torre de Belém. A nova forma de fazer a guerra possibilitou o tiro rasante de forma a atingir os navios na parte mais vulnerável. Daí que todas as peças de artilharia estejam no baluarte. Na margem oposta estava a já referida Torre de São Sebastião de Caparica, o que permitia fazer fogo cruzado e garantir que nenhuma embarcação inimiga passava a barra do Tejo.
No terraço, para além da vista magnífica, o detalhe que se destaca é a estátua de Nossa Senhora do Bom Sucesso, também conhecida por Virgem do Restelo, que se acreditava proteger os navegantes. Seguimos para a Torre. Tem quatro andares e mais um terraço, infelizmente, inacessível. Comecemos pela sala dos Governadores, onde o próprio fazia o controlo alfandegário. Lemos algures que também se fazia o registo de saúde. Ficámos algo céticos. Como é que na altura se conseguia garantir que os marinheiros não traziam doenças contagiosas? E se estivessem doentes, o que é que se fazia com eles? Ficavam embarcados até estarem recuperados? Hmm.. 🧐
© Arquivo Municipal de Lisboa | PT-AMLSB-CMLSBAH-PCSP-004-BOB-000020 (193-)
No segundo piso está a sala dos Reis e a incrível varanda com vista panorâmica sobre o Tejo. Um detalhe interessante apontado por algumas das fontes consultadas, é o facto das decorações mais minuciosas da Torre estarem voltadas para o rio. Embora tenha sido construída com intenção de defender a cidade, foi construída em plena época de “descobrimentos”. Não haveria também a intenção de aqui se fazerem as cerimónias de envio e de receções das expedições ultramarinas? Já estamos a imaginar reis e rainhas, príncipes e princesas, a corte e todo o cerimonial próprio da época, aqui, nesta varanda, a ver as naus partir para além-mar. Será que já havia binóculos? 😆 Bem, com ou sem binóculos, fica óbvio que já interessava que a porta de entrada e de saída do país fosse memorável. Ficamos só com uma questão, será que as naus e caravelas conseguiam aportar nos cais ribeirinhos ou aportavam na Torre e depois pessoas e carga eram transferidos para terra em barquinhos mais pequenos?
Outro pormenor curioso sobre esta sala, um Guia do Viajante do século XIX conta-nos que “dois visitantes colocados nos focos, que ficam em ângulos opostos da casa, podem conversar em voz baixa e comunicar mutuamente as suas ideias, sem que outra pessoa colocada no meio da casa, e, por conseguinte, mais perto de ambos, consiga ouvir uma só palavra”. Tentámos, não ficámos totalmente convencidos. Experimentem e depois dêem-nos feedback. 😁
No terceiro piso está a sala das Audiências. Não encontramos nenhum detalhe incrível sobre esta sala. É boa para sentar e descansar um pouco. Já estou a imaginar os historiadores de arte com vontade de nos bater. 😅 No último piso, a Capela e a sua incrível abóbada quinhentista.
Eu sei, a escrita já vai longa, mas são 500 anos de História. Como devem imaginar, há muita novela para contar. O episódio que se segue representa um período menos radiante da nossa História. Depois do desaparecimento do Rei D. Sebastião na Batalha de Alcácer-Quibir (1578), o Reino de Portugal herdou uma guerra de sucessão. O candidato português e seus apoiantes bem que se bateram, mas o outro candidato, o Rei Filipe II de Espanha, acabou por levar a sua avante. Depois de um combate feroz, as tropas portuguesas aqui aquarteladas acabaram por ser render às forças estrangeiras.
Seguiu-se a Dinastia Filipina (1580-1640), época em que o Reino de Portugal esteve sob a Coroa Espanhol. A partir de então e até ao século XIX, o paiol (armazém das armas) virou masmorras, daquelas com condições deploráveis e água até à cintura. Estiveram aqui vários presos políticos. Por norma, malta importante que desobedeceu ao Rei. Houve até um arcebispo que morreu aqui.
Durante este período fizeram-se alguns acrescentos à estrutura da Torre. Para servir de quartel, construíram no terraço do baluarte uma edificação de dois andares. Céus, quantas voltas no túmulo não terá dado o pobre arquiteto que projetou a Torre de Belém. Felizmente esse mamarracho já foi demolido. Conta-se também que o Rei D. Filipe II pediu a um arquiteto italiano que projetasse uma grande fortaleza para ser construída no local do “inútil castelo de S. Vicente”. Como sabemos, tal não chegou a acontecer.
Em 1700 e troca o passo, quando se construiu aqui ao lado o Forte do Bom Sucesso, construiu-se também um corredor muralhado a ligar o Forte à Torre de Belém. Durante as invasões francesas (1807-1810), fortaleceu-se a artilharia e as laterais da Torre. Não nos podemos esquecer o carácter militar da Torre, não é verdade? Finalmente, em meados do século XIX, depois do escritor Almeida Garret chatear meio mundo pelo estado decadente da Torre de Belém, levou-se a cabo um grande restauro. Demoliram-se todos os acrescentos militares que tinham sido feitos ao longo dos anos e adicionaram-se alguns elementos decorativos neomanuelinos.
© Arquivo Municipal de Lisboa |PT-AMLSB-CMLSBAH-PCSP-004-JBN-000578 (1912)
© Arquivo Municipal de Lisboa | PT-AMLSB-CMLSBAH-PCSP-004-JBN-000623 (1912)
O sentido estético durou pouco tempo. Novamente por razões de ordem prática, nas últimas décadas de 1800, instalou-se na Torre de Belém uma estação de serviços telegráficos e um farol. De seguida, para garantir que voltavam a arruinar toda a aura de monumento quinhentista, construiu-se a fábrica de gás no terreno atrás. 🤯🙄 A coisa ainda durou cerca de 70 anos. Foi demolida por ocasião da Exposição do Mundo Português de 1940. Todo o enquadramento paisagístico que hoje envolve a Torre de Belém é obra do arquiteto António Viana Barreto, que, por essa mesma razão, dá nome a este belíssimo jardim, sobre o qual também vos havemos de escrever.
Terminamos como começámos. Considerada Património Mundial pela Unesco desde 1983, a Torre de Belém é linda e vale bem esperar na fila para a visita. Façam só o favor a vocês próprios, comprem o bilhete com antecedência. Podem fazê-lo online. Por ser um monumento tão antigo, por questões de segurança, existe um número máximo de pessoas que podem estar simultaneamente na Torre.
© Arquivo Municipal de Lisboa | PT-AMLSB-CMLSBAH-PCSP-004-SER-007643 (1965)
Informações:
- Website: Torre de Belém
Referências:
- https://www.patrimoniocultural.gov.pt/pt/museus-e-monumentos/dgpc/m/torre-de-belem/
- http://www.monumentos.gov.pt/site/app_pagesuser/sipa.aspx?id=4065
- https://ensina.rtp.pt/artigo/torre-de-belem-a-joia-ribeirinha/
- https://artsandculture.google.com/partner/tower-of-belém
- https://www.tintazul.com.pt/castelos/historia/neuro-piro.html
- Araújo, N. (1944) Inventário de Lisboa, fascículo 1, CML: Lisboa.
- Viegas, J. C. (1952) O antigo Porto de Belém na margem direita do Rio Tejo. Revista Municipal. CML: Lisboa.
- Machado, J. C. (1880) Novo Guia do Viajante em Lisboa. 4ª Edição. J. J. Bordalo: Lisboa.
- (1845) Guia de Viajantes em Lisboa e suas vizinhanças. R. Ferreira e Cª: Lisboa.
- Ramalho, M. C. e Brito. N. (1939) A Tôrre de Belém, VI do Volume “Guia de Portugal Artístico” Edição de M. Costa Ramalho: Lisboa.
- Giorgetti, G. R. (2022). Contributos para a Valorização Patrimonial do Legado de D. Manuel I, nos 500 Anos da sua Morte. Relatório de Estágio no Mosteiro dos Jerónimos e Torre de Belém. Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Fotografias adicionais:
Capa website:
- © Arquivo Municipal de Lisboa | PT-AMLSB-CMLSBAH-PCSP-004-ACU-002517 (1900)
Redes Sociais:
- © Arquivo Municipal de Lisboa | PT-AMLSB-CMLSBAH-PCSP-004-ARM-000800 (1960)
- © Arquivo Municipal de Lisboa | PT-AMLSB-CMLSBAH-PCSP-004-EDP-001004 (1950)
- © Arquivo Municipal de Lisboa | PT-AMLSB-CMLSBAH-PCSP-004-FEC-000319 (s.d.)
- © Arquivo Municipal de Lisboa | PT-AMLSB-CMLSBAH-PCSP-004-FEC-000322 (s.d.)
- © Arquivo Municipal de Lisboa | PT-AMLSB-CMLSBAH-PCSP-004-FEC-000451 (ant. 1928)
- © Arquivo Municipal de Lisboa | PT-AMLSB-CMLSBAH-PCSP-004-NEG-02-N4495-77 (s.d.)
- © Arquivo Municipal de Lisboa | PT-AMLSB-CMLSBAH-PCSP-004-SEX-000476 (1881)
