Jardim Vasco da Gama
Ora bem, temos que vos dizer que a pesquisa para esta publicação não foi fácil. Ligámos o modo “rato de biblioteca”, fomos encontrando algumas referências aqui e ali, mas tivemos alguma dificuldade em confirmar e aprofundar o que íamos descobrindo. A veia científica que em nós habita, significou alguma frustração neste processo de pesquisa. Foram demasiadas pontas soltas, daí o longo período sem novidades. Pedimos desde já desculpa pelo transtorno causado. 😅
Em tempos quase toda a área do Jardim Vasco da Gama esteve debaixo de água. Vejam a planta: a seta indica atual Rua Vieira Portuense. Para quem está perdido, é a rua que hoje tem as esplanadas dos restaurantes. À frente dessa rua, em direção ao rio, havia um edifício, aquele que podem ver na fotografia a entrar pelo rio. O resto, era Tejo. Como ainda não encontrámos forma de comunicar com os peixinhos e perguntar-lhes como, em tempos idos, era a vida debaixo de água, seguimos em busca da história do espaço que não estava submerso: a atual rua Vieira Portuense – que para complicar, já teve diferentes nomes – e o tal edifício à frente.
Loureiro A. (1907), Os portos marítimos de Portugal e Ilhas Adjacentes, Atlas III, Estampa I, Fig. 2.ª
Lisboa: Imprensa Nacional.
© Arquivo Municipal de Lisboa | PT-AMLSB-CMLSBAH-PCSP-004-BAR-001184 (ant.1870)
Para grande frustração nossa, não encontrámos grande coisa relativamente aos tempos antes do Terramoto de 1755. No entanto, sabemos que toda a zona de Belém esteve ligada à vida marítima. Foi ponto de partida das expedições oceânicas, o que contribuiu para a concentração, neste local, de gentes e ofícios ligados ao mar. Também a construção do Mosteiro dos Jerónimos, mesmo aqui ao lado, fomentou o crescimento deste núcleo urbano. Segundo as fontes, existem prédios nesta área que foram construídos entre os séculos XVI e XVIII. Serão alguns dos mais antigos da cidade. Aliás, diz-se por aí que as casas das colunas ainda têm as marcas da água a bater. Hmm, será?
As historinhas do dia a dia destes tempos, não as encontrámos. Terão de ficar por conta da nossa imaginação: gentes de todas as cores e estatutos, peixeiras a vender o pescado do dia, velhos sentados a coser as redes, crianças a correr e a dar mergulhos do cais ou a última zaragata em frente à taberna, antes mesmo do marinheiro embarcar para o Oriente.
O terramoto de 1755 causou grandes estragos na cadeia do Limoeiro. Ora, uma vez que não convém ter presos em edifícios com buracos nas paredes, o senhor Ministro do Rei, futuro Marquês de Pombal, ordenou que se instalasse a cadeia aqui neste local, onde funcionou até meados do século XIX. Supomos que seja por isto que esta rua se chamou Rua da Cadeia (até 1911, data em que se passará a chamar Rua Vieira Portuense). Para além dos usuais prisioneiros por delito comum, as poucas informações encontradas referem alguns presos políticos/militares. Na sequência da Guerra Civil entre liberais e absolutistas (1828-1834), estiveram aqui detidos apoiantes da causa liberal de D. Pedro, incluindo alguns da Marinha Imperial do Brasil. Como era a vida nesta prisão, também é algo que terá de ficar ao critério da nossa imaginação. Teriam boa vista para o rio?
© Arquivo Municipal de Lisboa | PT-AMLSB-CMLSBAH-PURB-003-00028-64 (1858)
© Arquivo Municipal de Lisboa | PT-AMLSB-POR-017275 (1939)
Numa carta topográfica da cidade de Lisboa datada dos anos 50 do século XIX, podemos ver que já havia aqui um mercado. No entanto, sabemos que o edifício bonitinho das fotografias só foi inaugurado em 1882. Aproveitou-se um modelo já executado em Paris, feito de “ferro fundido e tijolo, podendo conter 64 lugares para renda de géneros alimentícios.” A avaliar pela documentação lida, diríamos que o processo de construção deste mercado deu algumas dores de cabeça. Para além de todas as expropriações, trocas de terrenos, demolições e realinhamento de algumas ruas necessário, as queixas ao Sr. Presidente da Câmara de Lisboa são mais que muitas: um empreiteiro que não tinha muita vontade de trabalhar, faltas de pagamento que chegaram a provocar a suspensão da obra, infiltrações que obrigaram à alteração de materiais e até problemas com as fundações. Diz aqui o meu Sr. Engenheiro que fundações em aterros são um pesadelo. A documentação do arquivo confirma-o.
© Arquivo Municipal de Lisboa | PT-AMLSB-CMLSBAH-PURB-003-00056-008 (1909)
Conseguir perceber a data exata dos diferentes aterros nesta área foi um quebra-cabeças. O Arquivo guarda tudo, incluindo plantas de projetos não concretizados. E agora, conseguir perceber o que é que aconteceu de facto? 🤯 Julgamos ter havido mais do que uma obra de aterros na zona ribeirinha de Belém, mas a maior terá sido a que teve início em 1887. E assim, na planta de 1909, já existe a Avenida da Índia e até a linha de comboio que liga o Cais do Sodré a Cascais (1895). Podemos ver também algumas ruas novas nesta área.
A Rua da Cadeia divide-se em Rua da Cadeia e Rua do Cais, mas por pouco tempo. Voltará a ser uma só rua, rebatizada de Rua Vieira Portuense, em homenagem ao pintor régio Francisco Vieira, um dos introdutores do neoclassicismo na pintura portuguesa. Surge ainda a Rua Bahuto e Gonçalves, cuja toponímia também será alterada (1911). Passará a designar-se Rua Paulo da Gama. Mas o que queremos mesmo são as historinhas, não é verdade?
Pois bem, antes mesmo da implantação da República (1910), havia nesta rua um Centro Escolar Republicano e um Centro Eleitoral Republicano. No início do século XX, o índice de desenvolvimento do país era baixo, a Igreja tinha uma enorme influência na sociedade e mais de metade da população portuguesa era analfabeta. Para Lisboa vinham muitos em busca de melhores condições de vida, tantas vezes, para viver em circunstâncias precárias. Com o objetivo de instruir as classes populares, mas, também, de difundir o ideal republicano, surgiram centros escolares republicanos por todo o país. Promoviam o ensino laico, mas também funcionavam como verdadeiros centros sociais: instruíam, tomavam conta, animavam e alimentavam as crianças do bairro.
Reza a história que havia nesta rua uma famosa casa de pasto, o António das Caldeiradas. Frequentada por conhecidos intelectuais portugueses, diziam eles que o cozinheiro se tornaria imortal pela elevada qualidade e frescura da sua caldeirada de peixe. Bem, de certa forma, ainda aqui estamos a falar dele e a salivar por uma. Por cima deste “génio do refogado” abriu, em 1919, a primeira sede do clube de futebol “Os Belenenses”. Vão lá ver que a placa está lá. Parece que já então este nosso jardim era um ótimo campo de treino. Decerto que seriam as caldeiradas do António a dar-lhes energia para jogar. 😆
© Arquivo Municipal de Lisboa | PT-AMLSB-CMLSBAH-PCSP-004-BAR-000075 (s.d.)
Em tempos dos loucos anos 20, parece que também houve aqui na zona um animatógrafo. Diz o sr. Google que se trata da projeção de fotografias dando a ideia de movimento. Será que a malta já levava pipocas a ver estas projeções?
© Arquivo Municipal de Lisboa | PT-AMLSB-CMLSBAH-PCSP-004-LIM-000839 (s.d)
Esta fotografia levantou-nos mais dúvidas que respostas. Em primeiro plano, um edifício com vários homens à janela e, o que nos parece ser a bandeira da Libéria. Por que razão estaria aqui hasteada a bandeira de um país africano, sem relações históricas com Portugal? Alguma sugestão? Dois edifícios ao lado, a sinalética indica-nos o “Retiro dos Marítimos, Jogo Chinquilho e Laranjinha”. A única coisa que conseguimos apurar foi que Chinquilho e Laranjinha são jogos tradicionais portugueses que existem desde o século XV, geralmente praticados pelos mais velhos, ao domingo à tarde.
Alguém tem mais alguma informação a acrescentar? Algum avô com estórias sobre Belém antiga para contar? Logo a seguir está o Mercado de Belém – sim, aquele cujo o processo de construção foi um pesadelo – e depois, a estátua da Praça de Afonso de Albuquerque, sobre a qual, eventualmente, também vos falaremos.
Ora tudo muito bonito, mas onde anda todo este quarteirão, perguntam vocês? Pois é foi todo demolido para a Exposição do Mundo Português de 1940. Ainda em fase da consolidação do regime e em plena 2ª Guerra Mundial (1939-1945) – em que certos países proclamavam a expansão territorial – o Estado Novo idealizou esta exposição com dois grandes objetivos: cá dentro, fomentar o sentido de identidade nacional e exaltar o regime e, lá fora, demonstrar ao resto do Mundo os grandes feitos do Império Português.
© Arquivo Municipal de Lisboa | PT-AMLSB-POR-056643 (02.1939)
Com efeito, o mote da exposição era celebrar o duplo centenário da fundação do Reino de Portugal (1140) e da restauração da independência (1640). Como quem diz, senhores espanhóis, já vos demos um pontapé no rabo uma vez, daremos uma segunda se for preciso! Para quem não sabe, na década de 40, houve efetivamente um plano do Governo espanhol para invadir Portugal.
Todo este evento teve lugar em Belém e, de um modo geral, ocupou toda a área do nosso jardim (que era uma das entradas) até ao atual CCB e do rio Tejo até ao Mosteiro dos Jerónimos. A longo prazo, pretendeu-se que o Mosteiro dos Jerónimos e toda a área de Belém recuperasse o esplendor visual que em tempos tinha tido e, para isso foi necessário destruir os prédios que, durante séculos, lhe obstruíram a vista do e para o Tejo. O mercado de Belém ainda sobreviveu a este evento. Só será demolido mais tarde.
A exposição durou apenas alguns meses e, nos anos seguintes, esta área virou um descampado meio abandonado. Será já na década de 80 que finalmente é inaugurado o Jardim Vasco da Gama, em homenagem ao navegador que descobriu o caminho marítimo para a Índia (1498).
No jardim existem duas obras de arte que nos suscitam a curiosidade: o Castle of the Eye e o Pavilhão Thai. A primeira, é uma peça escultórica não figurativa e minimalista, do japonês Minoru Niizuma. A segunda, trata-se de um Pavilhão oferecido pelo Reino da Tailândia para comemorar os 500 anos de relações entre a Tailândia (antigo Reino do Sião) e Portugal. Uma breve nota sobre este facto, trata-se da aliança diplomática mais antiga entre o Reino da Tailândia e um país europeu. Em 1511, Afonso de Albuquerque tomou Malaca. Sabendo que as relações entre os dois – o Reino do Sião e o Sultanato de Malaca – andavam azedas, Albuquerque enviou imediatamente uma embaixada a Sião. A coisa correu-lhe bem e ficámos todos amigos. Em 1516 foi assinado o primeiro Tratado de Amizade e Comércio. A nós, portugueses, interessava-nos o comércio e as ligações do Sião à China e ao Japão, a eles interessava-lhes as armas. Ao longo dos tempos, ali se foram sediando comerciantes portugueses. Embora a precisar de reabilitação, ainda hoje existe um pequeno bairro e três Igrejas portuguesas em Ayutthaya, antiga capital da Tailândia. Voltando aqui ao nosso Jardim, este pavilhão foi inaugurado em 2012 com a presença da princesa real da Tailândia, Maha Chakri Sirindhorn. Foi concebido com técnicas tradicionais de construção lá da zona, sem recorrer a um único prego. As madeiras têm encaixes, monta-se como se fosse um puzzle. Um detalhe bem engraçado, em cima da entrada tem a bandeira dos dois países. Foi montado em Banguecoque e transportado via marítima até Lisboa. Céus, nem quero imaginar a logística da coisa.
A última curiosidade sobre este Jardim, é o facto de ter funcionado como confessionário gigante nas Jornadas Mundiais da Juventude. 150 pequenos confessionários, construídos por reclusos com materiais reciclados, ocuparam o relvado. Batizaram temporariamente o espaço de Parque do Perdão e até o próprio Papa aqui ouviu confissões.
https://agencia.ecclesia.pt/
O Jardim Vasco da Gama tem cerca de 4 hectares e um extenso relvado, ótimo para piqueniques e banhos de sol. Tem parque infantil e equipamentos de ginásio ao ar livre. É circundado por uma larga faixa alcatroada, excelente para correr ou para as crianças aprenderem a andar de bicicleta e, por fim, rodeado de árvores que protegem o jardim do barulho da cidade. Nos primeiros e terceiros Domingos de cada mês há Feira de Antiguidades. Também no terceiro Domingo de cada mês, depois do Render Solene da Guarda em frente à Residência Oficial do Presidente da República, o Palácio Nacional de Belém, há uma exibição a cavalo promovida pelo Regimento de Cavalaria da Guarda Nacional Republicana, no Jardim Vasco da Gama. Chamam-lhe a Charanga a Cavalo. E é, nada mais nada menos, que um desfile a cavalo ao som de trechos musicais cuidadosamente arranjados. Vale a pena a visita.
Informações:
- Website: Jardim Vasco da Gama
Referências:
Loureiro A. (1907), Os portos marítimos de Portugal e Ilhas Adjacentes, Atlas III, Estampa I, Fig. 2.ª Lisboa: Imprensa Nacional.
Atlas da Carta Topográfica da cidade de Lisboa sob a direção de Filipe Folque: 1856 – 1858. Lisboa: Arquivo Municipal de Lisboa, s.d., fl. 60;
d’Arcos, I. P. (s.d.) O sítio. Do Palácio de Belém. Lisboa: Museu da Presidência da República.
http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=11104
https://dgrsp.justica.gov.pt/Portals/16/Biblioteca%20e%20Arquivo/Bol%20Informativos/n_02072017.pdf?ver=2018-10-26-092102-913
https://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/29418/1/Centros%20Escolares%20Republicanos.pdf
http://albertohelder.blogspot.com/2014/09/o-campo-do-pau-do-fio.html
https://www.re-mapping.eu/pt/lugares-de-memoria/belem
- https://toponimialisboa.wordpress.com/2016/06/16/a-rua-do-fialho-autor-de-os-gatos-e-do-arroz-de-perdizes/
- https://toponimialisboa.wordpress.com/2019/06/19/a-festa-do-japao-no-jardim-da-rua-vieira-portuense
http://www.icm.gov.mo/rc/viewer/30017/1660
https://portaldiplomatico.mne.gov.pt/relacoesbilaterais/paises-geral/tailandia
Arquivo Municipal de Lisboa | PT/AMLSB/CMBLM/GOMU/001/0005/0361
Arquivo Municipal de Lisboa | PT/AMLSB/CMBLM/GOMU/001/0005/0373
Arquivo Municipal de Lisboa | PT/AMLSB/CMBLM/GOMU/001/0005/0377
Arquivo Municipal de Lisboa | PT/AMLSB/CMBLM/GOMU/001/0005/0391
Arquivo Municipal de Lisboa | PT/AMLSB/CMBLM/GOMU/001/0005/0397
Arquivo Municipal de Lisboa | PT/AMLSB/CMBLM/GOMU/001/0005/0400
Fotografias adicionais:
Capa website:
- © Arquivo Municipal de Lisboa | PT-AMLSB-CMLSBAH-PCSP-004-SER-008477
Redes Sociais:
- © Arquivo Municipal de Lisboa | PT-AMLSB-CMLSBAH-PCSP-004-SER-006838 (1965)
