Universidade Católica Portuguesa
A 13 de Outubro de 1967, pelo decreto Lusitanorum Nobilissima Gens da Santa Sé, foi fundada a Universidade Católica Portuguesa. Certo, mas nem imaginam a novela que foi para chegar até este dia. Tudo começou em 1910, com a implantação da República Portuguesa. Como? Nós explicamos.
A ligação da Igreja e das ordens religiosas ao ensino é antiga. Não é por acaso que ainda hoje, por todo o Mundo, continua a haver um sem número de Colégios Católicos. Já pensaram sobre este facto? Escolas e universidades seculares e abertas a todos, como as que temos hoje, é algo relativamente recente. Durante séculos, a Igreja foi a instituição que mais se dedicou ao ensino e tal significou um grande ascendente junto da população, nas mais variadas dimensões da vida em sociedade.
O Século, suplemento humorístico, 8 de dezembro de 1910, www.parlamento.pt/Parlamento/Paginas/Separacao-Estado-Igrejas.aspx
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, pelo menos de alguns. Ao longo dos tempos a luta contra o poder da Igreja começou a ganhar contornos cada vez mais fortes. Com efeito, uma das grandes bandeiras da República Portuguesa foi a laicização do Estado. O novo regime pretendia o corte, de uma vez por todas, da autoridade da Igreja sobre o geral da população. Neste sentido, executou uma série de reformas com pesadas consequências para as instituições religiosas. Entre outras, de imediato se extinguiu a cadeira de Direito Canónico dos cursos de Direito e encerrou-se a Faculdade de Teologia na Universidade de Coimbra. A Igreja reagiu e protestou contra todas estas medidas, chegando ao ponto de haver um corte de relações entre o Governo Português e o Vaticano. Nem assim. Naquela altura não foi possível a Igreja sobrepor-se à lei e ao poder político instaurado.
Perante este cenário, como chegamos então à fundação da Universidade Católica, perguntam vocês? A verdade é que continuou a haver em Portugal uma grande percentagem de população católica. Durante anos, permaneceu o sentimento de que faltava no país uma escola superior de Teologia para formação dos quadros da Igreja. Simplificando, fazia falta uma instituição que formasse Padres, sem ter de os mandar para Roma estudar, pois a coisa ficava cara.
Longa foi a discussão sobre onde e em que moldes funcionaria tal instituição. Sim, bem longa, as primeiras ideias surgiram em 1919, no I Congresso do Centro Católico Português e, como vimos, a Universidade Católica Portuguesa foi fundada quase 50 anos depois. 😳🥵
O grande defensor de tal instituição foi o Cardeal Cerejeira (1888-1976). Cedo assumiu como sua missão apaziguar as difíceis relações entre o Estado e a Igreja e, sobretudo, restaurar o respeito e a consideração que o catolicismo perdera durante a 1ª República (1910-1926). A criação de uma Universidade Católica fazia parte dessa sua missão.
Determinado o sonho, havia agora que definir a forma e o lugar. Primeiro, a questão legal. A República tinha-se encarregado de proibir o ensino religioso, até em instituições particulares. A implantação do Estado Novo em 1933 permitiu ultrapassar este obstáculo.
António de Oliveira Salazar beija a mão ao Cardeal Cerejeira, seu amigo de juventude – Arquivos Gesco
Próximo desafio, havia que definir o enquadramento legal da instituição. Estaria sob a alçada da Igreja ou do Estado Português? Sonhada pela Igreja Católica, como não ter matriz católica? Implementada no Estado Português, não respeitar as suas condicionantes significaria que os cursos não serem acreditados por este e, como tal, os alunos não verem reconhecidas as suas habilitações. Por todas as razões, para ter sucesso, era imprescindível negociar e respeitar as condições impostas pelas duas entidades. Esta questão parece ter ficado assente com a Concordata de 1940, entre Portugal e a Santa Sé.
Outra questão a resolver, pretendia-se somente restaurar a extinta Faculdade de Teologia da Universidade de Coimbra ou criar uma Universidade Católica, que englobasse múltiplas faculdades? Este ponto gerou grande controvérsia. Havia quem defendesse que a Igreja não teria o rigor e a objetividade científica que a academia exige, que se deveria focar na Teologia. O próprio Presidente do Conselho, Oliveira Salazar defendia esta opção. O Cardeal Cerejeira defendia a segunda opção. Mais uma vez, os poderes político e religioso a entrar em colisão. Os dois tinham sido colegas em Coimbra e eram bons amigos. A discórdia resolveu-se.
© Arquivo Municipal de Lisboa | PT-AMLSB-CMLSBAH-PCSP-004-GON-000247 (1977)
Por último, mas não menos importante, onde? Estiveram em cima da mesa diferentes geografias a nível nacional: Coimbra, Braga, Porto e Lisboa. O próprio Cardeal Cerejeira, que tinha sido estudante e Professor em Coimbra, mudou várias vezes de opinião quanto à sua localização preferida. Finalmente, quando definido que seria em Lisboa, onde, concretamente?
Já nos anos 50, cansado de muita conversa e poucos resultados, para que a coisa pudesse, finalmente, andar para a frente, o Cardeal decidiu criar uma comissão técnica que resolvesse todos estes problemas: moldes, geografia e financiamento. Pelas nossas leituras, parece-nos que por esta altura, a maior dor de cabeça terá sido encontrar terrenos onde instalar a Universidade. Segundo o Eng. Luís Guimarães Lobato, membro da referida comissão, “o patriarcado de Lisboa dispunha de vários terrenos, mas todos envolvidos em processos administrativos de resolução complicada”. Será que ainda seriam os terrenos confiscados aquando da implantação da Primeira República? 😳
Hoje sabemos o resultado. Existe uma Universidade Católica Portuguesa, não estatal, devidamente enquadrada no sistema de ensino legal português e com várias Faculdades. Tem sede em Lisboa, em Palma de Cima, e unidades de ensino espalhadas pelo país: Lisboa, Braga, Porto e Viseu.
© Arquivo Municipal de Lisboa | PT-AMLSB-CMLSBAH-PCSP-004-JBG-001195 (1968)
Mas sabiam que Lisboa não foi a primeira localização? Na verdade, o primeiro embrião da Universidade Católica Portuguesa foi a Faculdade de Filosofia da Companhia de Jesus, a funcionar em Braga desde 1947. Em 1967, a Santa Sé instituiu-a como a primeira Faculdade da tão ansiada Universidade Católica Portuguesa, “antes de esta se estender, com a maior brevidade possível, à sede central em Lisboa”. Logo no ano seguinte, em 1968, é inaugurada em Lisboa, em Palma de Cima, a Faculdade de Teologia. O edifício permanece o mesmo. E o resto é história. Cumprindo o sonho do Cardeal Cerejeira, lentamente e ao longo do tempo, vai-se fazendo crescer a Universidade, abrem-se novas faculdades, unidades de ensino e constroem-se novos edifícios.
Em 1982 o Papa João Paulo II visitou o campus sede da UCP e lançou a primeira pedra para a construção do edifício que é hoje a Biblioteca João Paulo II. Biblioteca incrível. Durante anos, esta e a do Instituto Superior Técnico eram as únicas que estavam abertas 24 horas por dia, sete dias por semana. Estão a imaginar o resultado, não estão? Foi refúgio de estudo de mais de metade da população estudantil de Lisboa. Lugar de estudo, provavelmente de muita lágrima e frustração, mas sobretudo de muito trabalho, muita socialização, algumas sestas e gargalhadas. Quantos de nós tem estas memórias? Para além dos espaços comuns bem confortáveis e um mundo de livros sobre os mais variados temas, existem também os gabinetes privados, ótimos para trabalhos de grupo (e muita brincadeira). Daí desse lado, quem é que ainda pertence à trupe dos que ali fumavam? 😅 Outras memórias boas que nos chegaram aos ouvidos, será que os alunos ainda se baldam às aulas para ficar a jogar à espadinha no bar? 😆
Em 1994 inaugurava-se um novo edifício para onde foi transferida a Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais, hoje Católica Lisbon School of Business Economics. O projeto é assinado por Luís Cunha, arquiteto de estilo pós-modernista, com vasto currículo em obras ligadas à Igreja. Conseguem identificar este traço noutros edifícios religiosos por esse país fora? Por exemplo, na nossa Lisboa, já repararam na Igreja do Cristo-Rei da Portela de Sacavém ou no Edifício de Acolhimento do Santuário do Cristo Rei? Não será por acaso que alguns o recordem como um “homem que enaltecia a sua Fé em Deus através da Arquitetura”.
Quanto às pessoas, falaram-nos, com amizade, da eterna D. Laura, que ao que parece ainda trabalha no secretariado da Católica Lisbon School of Business Economics. Falaram-nos também, com saudade, dos tempos em que Tolentino Mendonça era Capelão da Universidade. Hoje é Cardeal e Prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação, na Cúria Romana. E do Professor João César das Neves, será que os testes desta cadeira continuam a ser histórias com mistérios para os alunos resolverem?
Em Agosto de 2023, durante as Jornadas Mundiais da Juventude, foi a vez da visita do Papa Francisco. Benzeu a primeira pedra da construção do Campus Veritati. Projetado pelo Arquiteto Carrilho da Graça, prevê-se a expansão das atuais instalações e acrescentar um grande centro de inovação, a norte do atual Campus da UCP.
https://givetocatolica.ucp.pt/node/715
https://givetocatolica.ucp.pt/campus-veritati
Antigos alunos que hoje ocupam cargos de relevo ou são referência para a sociedade portuguesa são mais que muitos. Para citar apenas alguns: António Horta Osório, Filipe de Botton, Isabel Jonet, Pedro Norton, Vítor Gaspar, Paulo Portas, Paulo Rangel, António Pires de Lima, Maria da Glória Garcia, Maria dos Prazeres Beleza, Ricardo Araújo Pereira, Pedro Mexia, Miguel Araujo, David Dinis, Miguel Pinheiro, entre outros.
De olhos postos no futuro, mas sem perder as referências do passado, a UCP continua, de forma bastante dinâmica, a apostar em novas parcerias, protocolos e programas. Um dos programas que nos pareceu ser bem interessante, é o programa de Mentoring. Um programa que fomenta a ligação da academia à vida real e vice-versa, ao promover troca de experiências de “um para um” entre novos e antigos alunos. Será que o nosso querido Ricardo Araújo Pereira faz parte deste programa? É que se assim for, viramos todos caloiros outra vez. 😅
Fica a História da Universidade Católica Portuguesa e algumas – poucas – estórias e memórias de quem viveu e vive a Universidade. Na verdade, essa é parte que nós gostamos mais. A história construída pelas pessoas. Alguém acrescenta mais alguma? 😃
E o trabalho de Bordalo II, White Dove (2016), na lateral exterior do edifício da Reitoria, gostam?
Informações:
- Website: Universidade Católica Portuguesa
Referências:
- Alves, A. A. (2017) Estudo de Impacto 50 anos da Universidade Católica Portuguesa. Fundação Amélia de Mello e Universidade Católica Portuguesa: Lisboa.
- Cruz, M. B. (2028) História da Universidade Católica Portuguesa, Universidade Católica Portuguesa: Lisboa.
- Lobato, L. G. (2004) Memórias Técnicas. Fundação Calouste Gulbenkian e ISQ: Lisboa.
- Moreira, A. M. (1990) O Cardeal Cerejeira, fundador da Universidade Católica Portuguesa, Lusitania Sacra, 2ª série, 2
- https://www.ucp.pt/pt-pt/catolicainstitucional/historia
- https://pt.wikipedia.org/wiki/Universidade_Católica_Portuguesa
- https://app.parlamento.pt/COMUNICAR/Artigo.aspx?ID=974
Fotografias adicionais:
Capa website:
- © Arquivo Municipal de Lisboa | PT-AMLSB-CMLSBAH-PCSP-004-NBS-001095 (1971)
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- © Arquivo Municipal de Lisboa | PT-AMLSB-CMLSBAH-PCSP-004-JBG-001194 (1968)
- © Arquivo Municipal de Lisboa | PT-AMLSB-CMLSBAH-PCSP-004-JBG-001195 (1968)
- © Arquivo Municipal de Lisboa | PT-AMLSB-CMLSBAH-PCSP-004-NBS-001094 (1971)
